quinta-feira, 17 de abril de 2008

CUSPIRAM NO PRATO QUE COMERAM

FRANCISCO SAMPA


Jogaram no fundo poço do abandono 28 anos de história e tradição. Foi a esta conclusão que cheguei ao ler nos jornais Luso Americano, Brazilian Press e Brazilian Voice a notícia da não-realização dos festejos do dia de Portugal na cidade de Newark. Um fato a lamentar hoje e com certeza daqui a vários anos, pois não se joga no lixo um evento da grandeza do dia de Portugal. Evento este que trouxe para cidade pessoas do nível do excelentíssimo José Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz e presidente do Timor Lorasae (antigo Timor Leste), o excelentíssimo primeiro ministro de Portugal, o professor Doutor Cavaco Silva e outros dignatários de suma importância para a imensa nação lusófona.

Um dia todos sentirão falta e saudades daquelas tardes de domingos de junho, em que nossas crianças, vestidas com seus trajes típicos nas cores do glorioso Portugal e do desinibido Brasil, desfilavam pela principal artéria do nosso amado e importante bairro leste, o Ironbound. Ranchos folclóricos mostravam e preservavam a tradição do povo português em terras da América, um povo que construiu este bairro, transformou num grande centro sócio cultural, um oásis de progresso, civilidade, ambiente familiar e digo sem medo de errar ou ser piegas a salvação da cidade de Newark.

Pois é do Ironbound que ainda sai as boas noticias da cidade, cultura, culinária, religião, gente honesta e trabalhadora, povo sofrido com a alma calejada de saudade, que nas tardes de domingo empunhavam sua bandeira e cantavam "heróis do mar, nobre povo nação valente e imortal". Agora a este nobre povo lhes foi negado o direito de celebrar o dia máximo de sua gente e do maior escritor poeta da historia da humanidade que, quis o bom deus fosse português, Luis de Camões, autor da imortal obra Os Lusíadas.

Um quarto de século de uma boa história, que levou para os quatro cantos do mundo a historia do imigrante português nas terras do Tio Sam e suas realizações na cidade de Newark e adjacências. Um evento que gerava empregos e divisas nos mais variados segmentos comercias da cidade: hotelaria, comunicação social, gráficas, prestação de serviços e outros. Criado pelo patriotismo de um português de boa cepa, Sr. Bernardino Coutinho que com apoio da família e de poucos amigos que viram no evento a chance de elevar a Portugalidade e demonstrar o sentimento de patriotismo e amor por Portugal. As danças, os cantares, as cores e a gente portuguesa: alentejanos, algarvios, lisboetas, alfacinhas e tripeiros, mortiseiros, fadistas, cásticos e minhotos. Todos neste dia celebravam uma só coisa: a saudade e amor pela terra em que nasceram e certeza de que uma coisa ímpar não precisa de passaporte pra se ver que é português.

No Ironbound falta tudo para os nossos jovens: escolas áreas de lazer, campos de futebol e outras coisas mais. Uma das poucas chances de lazer que os nossos jovens e crianças tinham mesmo que uma vez por ano era o desfile do dia de Portugal e até isto já lhe tiraram também. Não teremos mais as bandas com seu garbo marcial desfilando pela Ferry, crianças de todas as nações com suas bandeiras a nos acenar com um sorriso angelical como a nos desejar felicidade, um momento ímpar em que todos nos esquecíamos da vida sofrida de imigrante.

Retribuíamos o aceno com um aplauso e um brilho no olhar difícil de transcrever, pois cada um se transportava para sua aldeia que ficou pra trás, para a freguesia que os viu nascer. No peito o coração pulsava de saudade em um bater marcado por um bumbo solitário, na cadencia do soldado e do estudante que desfilava sob um sol de verão. O coração do povo que vinha de longe enchia de alegria para ver, fazer e rever os amigos que aqui ficaram.

Pergunto a todos: Existe algum lugar nesta cidade onde um casal de americanos brancos e ricos, na casa dos seus 60 anos, possam caminhar de braços dados, após sair de um dos nossos restaurantes e observarem as montras (vitrines) e a gente a passar, as dez ou onze horas da noite em segurança? A resposta é: existe sim, e se chama Ironbound. Esta sensação de segurança se deve ao povo deste lugar e ao povo português, que aqui construiu e edificou uma comunidade ordeira e honesta, zelando pela segurança de seus visitantes.Afinal, nada é mais prazeroso do que visitar a casa de um português, e o Ironbound é a casa de todos nós.

Agora, o que recebemos em troca por parte das autoridades constituídas cá do burgo é a negativa em celebrarmos o dia de Camões, o dia de Portugal. Onde estão os ricos comerciantes que amealharam pequenas fortunas ao longo destes 28 anos com a comunidade portuguesa e com o dia de Portugal? Onde estão os donos das reluzentes limusines que ostentavam o poderio sócio econômico dos seus proprietários? Onde estão os poderosos construtores com seus caminhões lavados e prontos para desfilarem, mostrando o poderio financeiro dos mesmos? Onde estão os políticos que usaram o dia de Portugal como montras (vitrines), palanques onde se mostraram ao povo e ganharam cargos e poder público? Onde estão aqueles que neste dia saíam às ruas e gritavam com todo o ar dos pulmões e a toda força “eu sou português, pá!”?

Como cidadão brasileiro e um dos colaboradores do dia de Portugal nos últimos 21 anos, digo me processem, me matem , me prendam, me levem aos tribunais, mas não me calarei diante de tamanho descalabro, ao não permitirem a realização de tão importante evento de renome mundial, com 28 anos de historia e tradição. É com todo respeito que alguns dos senhores merecem, leiam e eu lhes direi pessoalmente: “Vocês cuspiram no prato que comeram”. Que a historia lhes faça a justiça, pois o tempo e o senhor de todas as causas.

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