domingo, 13 de abril de 2008

O CADAVER QUE FALTAVA

Francisco Sampa



Esta frase foi dita no ano bissexto de 1968, no antigo estado da Guanabara, nos primórdios da revolução de 64, ano do AI-5 e outras coisas que aconteceram em todo o Brasil no decorrer daquele ano, principalmente no trecho Rio-São Paulo. Um jovem migrante de uma pequena cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, cheio de sonhos como tantos outros da sua faixa etária e classe social, mudou-se para a cidade grande em busca de cultura e de uma vida melhor. Sobrevivia graças a alimentação barata do Calabouço e era obrigado a recorrer a pequenos expedientes, como fazer limpeza do restaurante. Assim era a vida de Edson Luis, um jovem migrante sonhador que acabou virando Mártir, nos anos da revolução, morto por um tiro de um revolver calibre 38, que saiu da arma do aspirante da Policia Militar Aloísio Raposo. A bala atingiu o coração do jovem deixando seu corpo prostrado no chão, e apenas um silêncio servindo de amém.
1968 foi o ano da glória do compositor Geraldo Vandré e o ano da miséria do cidadão Geraldo Pedroso de Araújo Dias Vandregisilio, o ano em que não se pode falar de flores, em que muitos morreram pela pátria e viveram sem razão, soldados armados ou não trucidaram um ideal de amor pela pátria. E os generais no poder ditaram as ordens do dia, dias que se transformaram em anos de truculência e repressão. Jovens idealistas saíram às ruas, gritaram, marcharam e morreram por um sonho. Muitos seguiram e seguem cantando a canção, repressão, exílio, cadeia, corpos desaparecidos, presos políticos, bandidos comuns, todos em um só caldeirão, e hoje passados 39 anos, já não faltam mais cadáveres nas ruas e morros do Rio de Janeiro, já não faltam mais cadáveres nas ruas das grandes e pequenas cidades do Brasil.
Faltam vergonha, pudor, amor ao próximo, a morte se banalizou. Matar e morrer já não faz diferença. A bala perdida. O corpo achado no mato ou numa viela na porta de um barraco qualquer, homem, menino ou mulher. Vítimas da intolerância, da ganância, do trafico de drogas e sua influência, da inoperância do poder público, que quando chega ao morro ou a favela é para matar: ao invés de lápis, papel e caneta, homens de preto chegam com metralheta.
É mais fácil enterrar o pobre do que ensiná-lo seus direitos e deveres, esquecendo-se que todos nós temos as mãos domáveis e sede do saber. Os cadáveres do Rio de Janeiro, de São Paulo ou Recife são dos filhos da pátria amada mãe gentil, são nossos irmãos. Bons ou maus, são brasileiros, gente que sonha por dias melhores.Queira o bom Deus criador do universo, que estes dias não tardem a chegar, pois as balas estão perdidas, ceifando vidas.
Aos senhores de plantão no poder, lembrem-se: um dia a direita conservadora disse “era o cadáver que faltava”, e agora, senhores, que sobram cadáveres? Que pretendes vós fazer, para salvar a vida do nosso povo e da nossa nação, pois estamos caminhando, não cantamos canção, vivemos pela pátria mas nossos compatriotas estão sendo mortos sem razão, os soldados armados e o pobre cidadão.

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