texto piblicado no B.PRess edicao de 2 de setembro de 2009
Do pó vieste a Minas retornaste
Tarde de quinta-feira, dia 27 de agosto. Correria na redação do jornal. Viagem marcada. Passagem na mão. Avião não espera e o voo era com escala na terra do Mr. Bush, aquele que complicou tudo nos últimos 8 anos.
De repente o telefone toca. Era o De do Brasília Grill: “Sampa, me ajuda pelo amor de Deus”. Por instantes cheguei a pensar que um certo comerciante da cidade tinha apertado o pescoço do De por causa daquela história. Bem, é passado, deixa para lá. Não estavam matando o De não. Aflita a irmã do falecido Mirim queria saber o que fizeram com os restos mortais do seu “querido” irmão. Aquele infeliz que foi encontrado morto semanas atrás na Jackson Street no Ironbound em Newark.
Como todos sabem, (acredito eu), nos últimos 23 anos já ajudamos aproximadamente 80 famílias que ficaram sem os seus entes queridos, que na busca do sonho americano se aventuraram mundo a fora na busca do Eldorado, mineiros, goianos, paranaenses e de outras regiões e estados do Brasil. Muitos não conseguiram realizar o sonho de fama e fortuna, tiveram suas vidas e sonhos interrompidos nesta longa e sinuosa estrada da vida e assim foi com Walmiro, o popular Mirim do Mall da Adams e de outras “cositas” confirmadas, outras nem tanto.
Deixemos isso de lado, é mais um que se foi de forma abrupta e no frigir dos ovos deixou a fatura do funeral para a comunidade como a grande maioria faz, tem feito e com certeza continuará fazendo. Todo mundo é rico e bacana, mas quando se vai não deixam “din-din”, seguro de vida e nem grana para as despesas e o povão solidário e amigo certo das horas incertas passa a sacola e as malditas e vergonhosas listas na ânsia de coletar míseros dólares para as despesas de mais um imigrante brasileiro que se vai.
Em muitos casos são levados num caixão ou como no caso do Mirim numa simples caixa, que tive que transportar até o maior terminal rodoviário do mundo, o Tietê, na capital paulista e fazer o despacho como uma simples encomenda no amarelo dourado da Itapemirim rumo ao Vale do Rio outrora menos poluído e Doce, a cidade natal de muitos que para cá vieram tentar a vida, fazer fama e fortuna.
Mais uma vez coube à este semi-alfabetizado escriba nordestino ser o portador da triste encomenda. Levar junto aos meus pertences o corpo inerte de um ser humano, um compatriota, que durante anos vi e cumprimentei nas artérias do nosso bairro e que agora transformado em cinzas seguiu comigo de volta à terra onde nasceu, crescer e correr nos campos e vales, olhando para o céu das Gerais de todos os mineiros, com um sonho na mente e no coração.Pois é amigos, a morte certa neste futuro incerto de todos nós vem sorrateira, abreviando a vida e os nossos sonhos. Sonhos de prosperidade e felicidade, sonhos de um povo simples, honesto e batalhador. A morte nossa de cada dia está sempre à espreita. A Bíblia diz: “Do pó vieste e ao pó retornarás”. Mirim, do pó vieste e a Minas retornaste. Que as bênçãos de Deus cubram teu espírito e acalante a tua alma. Nós brasileiros imigrantes aqui continuaremos sonhando e prontos para a próxima coleta, para a próxima vergonhosa lista, até que um dia tomem vergonha na cara e cada qual faça um seguro de vida, nos privando de tantos dissabores: os da morte e das coletas. Mas a fila anda. Next.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
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