Podemos não gostar, mas temos que respeitarsonhador
Francisco Sampa
Sem verso e sem prosa, nordestino, baixinho, cabeça chata, pés descalços, analfabeto, migrante pau-de-arara. Não é fácil vencer no sul maravilha carregando incrustadas na pele estas características. Com esta etiqueta chegou à cidade de Santos aquele grupo de pernambucanos meus conterrâneos vindos de Garanhuns no agreste do estado. A vida não foi fácil. Uma mulher doente, uma renca de minino. Minino mesmo. Pernambucano tem mania de trocar e pelo i. Tanto é que todo mundo é de Ricife e poucos são de Recife. Voltando à saga da família Silva, como tantas no Brasil, essa tinha uma estrela, uma pedra preciosa que precisava ser lapidada. Não era mais um Silva como eu e você e tantos outros Brasil afora. Não era mais um Luis, como o Rei do Baião, o Gonzagão dos 120 baixos e tantos altos, que num voo da Asa Branca foi fazer forró no céu com um triângulo de ouro e uma zabumba dourada. Era um Luiz. Era também Inácio. Sua vida foi o prefácio das coisas que um dia iríamos ver. Como tantos nordestinos, ao chegar em São Paulo virou baiano, mas era um Luiz Pernambucano, menino nobre, sonhador, porém fruto de uma noite ou um momento de amor de uma mulher pobre e um lavrador lutador. Quando a terra secou, o mandacaru não deu flor, só restou uma opção, subir num caminhão e seguir no estradão carregando o “malutão”. Na viagem tinha farinha, carne seca e feijão. E lá se foi Luiz pra Sun Paulo. Tentar a vida, virar gente. Passados os anos, Luiz agora é o Lula Presidente. Foi sindicalista, lutou pelas diretas, viajou país afora. Quando a dita tava dura, Luiz levou uma dura foi parar no xilindró, “seu doutor tenha dó de mim, sou trabaiador metalúrgico, luto por meus direitos e dos companheiros”. Luiz ficou na cadeia preso na teia do porão ditador. Veio o tempo e as mudanças e Luiz foi deputado sem anel de doutor. O cabeça chata nunca foi vereador, mas sonhador e lutador. Luiz não foi governador, saiu para presidente. Não foi na primeira vez que Luiz representou sua gente. Anos se passaram. Os colloridos se foram e os tucanos também. Luiz cabra arretado, nordestino lutador, lutou pelo sonho e um dia Luiz Lula ganhou. Agora é o presidente. Claro que tem muitos descontentes. Eu também aqui estou. Lula na presidência merece o respeito de um sonhador, lutador por um sonho e hoje assim cada um luta pelo seu. Eu aqui com o meu e você aí com o teu. O nordestino de cabeça chata chegou onde muitos não queriam, nem eu tão pouco queria que ele chegasse, Pt, saudações à parte, são as coisas da democracia de uma terra chamada Brasil. Se ele pode, qualquer um poderá. Podemos até não gostar... Mas temos de respeitar este cabra sonhador, que sem anel de doutor, virou presidente da terra que nos viu nascer, país pelo qual morremos de amor
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