A nau dos explorados
Francisco Sampa
Ela navega no mar da ambição, nas ondas da ganância, pelas sombras do gueto, seus tripulantes são donos de restaurantes, companias de construção, proprietários de casas, agências de venda de carros, viagens e pseudos notários públicos do burgo, patroas gananciosas com suas “companhias de limpezas”, despachantes mal intencionados com seus serviços ilegais, venda de documentos falsos e pasmem até alguns advogados.
O brasileiro , imigrante, ilegal ou não, vive nos dias atuais um drama que merece uma reflexão e até um estudo mais detalhado desta situação, afinal todos chegamos aqui com o propósito de melhorar de vida, ter e dar dias melhores para os nossos descendentes, lutar contra as tais injustiças sociais das quais nos julgamos vítimas na sociedade brasileira, mas boa parte dessa leva de injustiçados, brasileiros auto-exilados, não estão a medir mãos na conquista do “American Dream”, e por um punhado de dólares , transgridem todas as leis, as dos homens e as de Deus, pois o que importa é a roupa de grife, um bom carro, a mesa farta e um bom patrimônio aqui e na terra que ficou para trás. Solidariedade só na hora da morte, o medo substitui o respeito, os valores se invertem e no alpinismo sócio-comunitário, muitos preferem ter do que ser, esquecendo-se que um é de ordem material e o outro psico-espiritual, quase que eterno e segue conosco mesmo depois desta fase que chamamos de vida carnal.
Em nosso mar de sonhos, lágrimas , alegrias e muita luta, seguimos a bordo do nau em busca de novos mundos, os exploradores de almas e gente em busca de novos explorados, ao contrário das caravelas dos grandes descobridores, ela e seus tripulantes viajam nas sombras do gueto em busca de novos veios, sugando o sangue da veia de cada imigrante recém chegado, e o suor que escorre pela face, a cada banheiro que é limpo, a cada “two by four” que é pregado, a cada P.F que é servido, pois este é um raro momento do encontro dos explorados que estão atrás do balcão e daquele que com um prato de comida tenta saciar a fome e num copo de cerveja a sede de carinho, de amor, afogar as mágoas e a saudade, do pai, da mãe , da mulher amada e dos filhos que ficaram para trás. Nesta terra de neves, parques e oportunidades, ele, imigrante sonhador, está em busca da sua, sobrevivendo a cada dia e morrendo a cada instante por um punhado de dólares, verdes com a esperança, mas que quando chegam às suas mãos estão manchados de sangue e molhados de suor.
Neste mar de ambições e ganância, como piratas de uma nova era, explorados e exploradores seguem rumo à linha do horizonte em busca do pote de ouro no fim do arco íris. Que pairem sobre todos nós as bênçãos dos céus neste oceano de vaidades, ambições, ganâncias e desejos sem limites, que os tripulantes desta nau recordem do passado não muito remoto, onde muitos deles também eram passageiros...e que os passageiros de hoje não se tornem os tripulantes exploradores do amanhã, que está tão próximo.
Franciscco Sampa
Grumete do barco da vida.
God Save The Emigrants
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
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