quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

LI NO JORNAL

LI NO JORNAL


Francisco Sampa

Texto publicado no B.Press dia 3 de maio de 2008

Leitor assíduo da maioria dos jornais brasileiros, não fiquei nem um pouco estarrecido ao ler o texto que resolvi trazer ao conhecimento de vocês meus prezados amigos e leitores, que todas as semanas lêem esta coluna de opinião em todo os Estados Unidos da América do Norte. Publicada em um dos maiores jornais brasileiros, reflete a realidade das coisas e dos fatos na nossa pátria amada gentil. Terra de miscigenação, mas que ainda impera de forma explicita e levada muitas vezes para debaixo do tapete o nosso...Racismo à brasileiraDomingo. Morumbi. São Paulo contra Noroeste. Após fazer dois gols no time de Bauru, o tricolor cede o empate. Vexame. Torcida irritada. Torcedor troglodita xinga o juiz de todos os nomes. Depois, urra um "macaco!" para defensor negro do Noroeste. Alguns se constrangem, mas ninguém protesta, até porque só tem branco nas cadeiras numeradas. O Brasil é racista. Negros são 13% da população dos Estados Unidos. Negros e pardos são 50% da população do Brasil. Os EUA são mais racistas que o Brasil, reza a lenda. Mas qual dos dois gigantes americanos está mais perto de eleger seu primeiro presidente negro? Sim, o país de Lula é mais racista que o país de Bush (e Obama). Pode não ser um racismo institucional, explícito, como já foi nos EUA. Mas somos mesmo um país desinstitucionalizado, nosso racismo, como nossa economia, é informal. Enquanto EUA e África do Sul colocaram em leis e placas sua discriminação contra os negros, explicitando seu racismo hediondo. No Brasil, ele quase sempre foi dissimulado, tanto que chegamos a nos ver como uma 'democracia racial'. Balela. Mais provas? Salvador, maior metrópole negra fora da África, nunca elegeu prefeito negro. Nova York de maioria branca, sim (David Dinkins, 1990-93). O Brasil não tem nenhum embaixador negro nos quadros do Itamaraty. Os EUA têm vários. Seus últimos dois chanceleres foram negros: Colin Powell e Condoleezza Rice, dois nomes-chave do governo Bush. Aqui, na editoria de Dinheiro, já buscamos algumas vezes executivos negros nas corporações brasileiras, para que relatem sua experiência no mundo ariano em que vivem. A dificuldade de encontrá-los é enorme e seus relatos são desoladores. Entre nossos banqueiros então, nem vale a pena procurar. Já um dos bancos mais importantes dos EUA, o Merrill Lynch, foi presidido por seis anos, até 2007, por um afro americano, Stanley O'Neal. As razões para a desvantagem dos afro-brasileiros em relação aos afro-americanos são complexas. Fincadas nas ineficiências de nossa democracia, de nosso sistema educacional e de nosso travado ambiente de negócios, que estanca a mobilidade social. Já nos EUA, a eficiência da democracia e, principalmente, o dinamismo econômico criaram oportunidades para a população afro-descendente, que ainda vive muito pior que os brancos e mesmo outras minorias, mas estão bem melhores que os afro- brasileiros. São mais cidadãos. Sim, há mais miscigenação racial no Brasil, enraizada na pré-história do país. Enquanto a colonização norte-americana foi uma empreitada familiar, a brasileira foi forjada por portugueses solteiros que procriavam com a população original do “novo” continente. Depois com as escravas africanas. O Brasil foi o maior importador de escravos das Américas. Levou ao continente, segundo cálculos acadêmicos, sete vezes mais africanos que os EUA. Quando tardiamente abolimos a escravidão, em 1888, negros e mestiços eram maioria no país. Levando nossa elite racista, nos anos de 1930, entusiasmada com o racismo “científico” em voga na Europa, a adotar política de imigração para atrair mão-de-obra branca européia, barrando africanos e chineses e enfraquecendo nossa negritude. A miscigenação racial continua até hoje (mas nunca entre a elite branca), dando a impressão de democracia racial. Falso. Agora não sabemos desfazer essa verdadeira herança maldita da escravidão, que mesmo no século 21 permanece escancarada, embora não institucionalizada, como prova o grito impune no Morumbi. É um dos maiores desafios do Brasil. Bem espero que tenham gostado. Como puderam perceber, não é só aqui que tocamos neste assunto. No Brasil as cabeças pensantes também se preocupam com o tema, que merece uma ampla discussão e ação por parte da sociedade brasileira. A todos uma boa semana.

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