terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Castelo, Casa Grande e Favela

Castelo, Casa Grande e Favela


Francisco Sampa

Seguindo a lei de Lavoisier peço licença ao meu conterrâneo Gilberto Freire e dou uma leve plagiada em seu livro Casa Grande e Senzala.
Hoje a coisa é assim mesmo: castelos, casas grandes e favelas. Por toda parte e por todo o Brasil a desigualdade é um mal necessário e faz parte da história da humanidade, mas da forma como ela existe e perdura em nossa pátria mãe gentil é algo que nos dá nojo e simplesmente abominável: uns com tanto, milhares, milhões e outros à míngua nas grotas e nos barracões outrora de zinco no morro e fazíamos uma prece, pedindo a Deus e à Virgem Maria.
Hoje os barracos não são mais de zinco, desceram os morros numa enxurrada de miséria, gente e pobreza. A realeza no asfalto com seu olhar de soslaio, só querem os pobres como míseros serviçais e lacaios.
Ao rico tudo é possível. Tudo é permissível. Ao pobre o impossível vira milagre. Lhe é negado o direito a tudo. Em muitos casos o direito de nascer, mas como pobre é coisa ruim, gente teimosa, nasce e tenta levar a vida em verso e prosa. Nos versos da vida, na prosa da morte, o pobre muitas vezes não conta sequer com a sorte, pois se sorte tivesse pobre não nasceria. Na luta do dia-a-dia só lhe resta olhar pro céu e dizer valei-me Virgem Maria.
A massa se movimenta. A massa não se agüenta. O proletário e seu curto erário reclamam e querem mais. Todos se fazem de surdo, ninguém sabe, ninguém viu e o pobre canta com brilho nos olhos: “Eu Te Amo Meu Brasil”. Ele ama, respeita e idolatra a terra que o viu nascer. O chão no qual um dia irá morrer, uns de fome, outros de bala perdida. No peito do pobre sangra uma dolorida e grande ferida. A ferida da injustiça, do escárnio, da discriminação, da gente simples que trabalha, faz, constrói e limpa a nação. A nação dos corruptos, dos fariseus, políticos hereges e de empresários ateus. Não temem a nada, só olham para cima para ver os níveis da bolsa ou do termômetro da exploração. Corrompem, roubam, tripudiam e dilapidam a nação com castelos e casas grandes. E os pobres da senzala para favela esperam que um dia a vida lhes seja bela.
O que esperam para acordar! O grito está nas ruas! Acordem senhores do poder! Acorde povo sem poder! Vocês são o poder! Vocês têm o poder! O poder de mudar. Mudar o curso do rio que chegará ao mar. O poder de lutar e reivindicar. É hora de escutar o povo, pois assim como na Bastilha poderá cair tudo de novo. Quem será o Luiz XV? Que tipo de guilhotina será usada? O povo está com fome. A sociedade está maltratada. Poderosos de plantão acordem e olhem para o céu e também para o chão. Olhem para a nação. A nação dos excluídos, dos meninos e meninas que um dia foram crianças e hoje viraram bandidos.
Roubam de todas as partes. Roubam com todas as artes. Em Brasília o rei mineiro, ops, o deputado mineiro e seus pares, ou seriam seus cúmplices, pois o corporativismo é algo vergonhoso por parte do Legislativo e de todo o Congresso Nacional. Quem tem telhado de vidro não anda com pedras na mão. O tal castelo existe há 15 anos e só agora o mundo descobriu. É que na grande metrópole de João Nepomuceno são tantos os castelos, que mais um o povo quase não nota, tamanha a quantidade de mansões e castelos no meio de moradias de gente humilde honesta e trabalhadora.
Em Paraisópolis, ao lado do pomposo e chique Morumbi o povo se rebelou, queimou e quebrou tudo o que viu pela frente. O povo vê e sente tudo, mas os ricos e os políticos são cegos e não sentem nada. A cada dia que passa a classe média e abastada é prisioneira dos seus próprios sonhos e desejos de consumo. Vivem em celas de luxo, pois é nisso que estão se transformando as casas e apartamentos das classes mais abastadas. Falta investimento na educação, na saúde e na segurança de tudo e de todos. Estamos sendo vitimas da nossa própria ambição. Vítimas do ter e vamos passando pela vida esquecendo de ser.
E assim caminhamos rumo sabe Deus para onde. Todos querem ter mais e muito. Uns corrompem, outros são corrompidos. Ambos perdem, pois quando a turba se revolta, ela cobra tudo de todos, dos explorados e dos exploradores. Na comunidade não está sendo diferente, os explorados estão afivelando as malas. Muitos já o fizeram e os exploradores estão se lamentando da falta de incautos e necessitados para serem explorados. Pois é amigos! Não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe, mas até o bem voltar, muita gente irá passar muito mal, de ambos os lados do muro, os explorados e os exploradores, tanto os daqui, como os de lá e o lado bom da crise democrática atingiu a tudo e a todos e agora é um salve-se quem puder.
Dos castelos do interior de Minas, das mansões luxuosas de paulistas e cariocas e de outras partes do Brasil, uma coisa é certa: a mão de obra que cuida e mantém o luxo com seu brilho reluzente, vem da gente pobre humilde, os explorados da periferia da comunidade. Os ricos senhores de mansões e apartamentos de luxo são os únicos responsáveis por nossos castelos, casa grande e favelas. No dia em que despertarem para essa realidade, quem sabe teremos um equilíbrio tolerável entre pobres e ricos, pois na pirâmide social são dependentes mútuos para a existência de uma sociedade coesa e com respeito pelo ser humano, independente dos cifrões que cada um tenha no bolso. Pobres e ricos são necessários para o equilíbrio da sociedade seja ela qual for. Na natureza a cobra engole o sapo para sobreviver, como ficarão as cobras no dia em que acabarem com os sapos?

Um comentário:

.../.. disse...
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