PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU, QUE A TERRA NOS SEJA LEVE
Deixaram pra trás a rua, os amigos, pai, mãe, irmãos e família. Um sonho na mente, passaporte no bolso e um desejo: fazer América. Ganhar dinheiro, voltar pra terra amada mãe gentil com os bolsos recheados de dólares, convertê-los em reais e pobreza nunca mais.
Mas o destino, este companheiro abstrato que vive nas sombras sempre à espreita, quando menos se espera, como um gato furtivo, põe as unhas de fora e arranham nossas vidas e sonhos. Assim tem sido nos últimos anos. Milhares de compatriotas deixam para trás a terra que lhes viu nascer, os amigos do boteco, do papo da esquina, do futebol aos domingos e das peladas no fim da tarde, na rua escura de um bairro pobre na periferia de uma cidade qualquer do Brasil.
Tio Sam aqui estou. Faça de mim um instrumento de vosso consumo e assim muitos começam a caminhada por estas terras. Uns pintam o sete. Outros pintam casas e pontes, uma aquarela que um dia descolorirá. Umas limpam casas, outros as constroem, enquanto os da demolição as destroem. Neste grande palco cada imigrante faz o seu show pela vida. Um com muita roupa, outros com pouca ou quase nenhuma roupa, mas o show não pode parar.
O sonho se sonha acordado e o pesadelo mora ao lado, as contas, o chefe, a imigração, a policia, o dono da casa, o patrão, o mau caráter e explorador. A mulher que traiu, o marido ausente, o chifre trocado, o coração partido, a filha desviada, o filho drogado, o dólar contado e o sonho não realizado.
O sucesso nem sempre é de todos. Uns choram de dor de saudade do mundo que ficou pra trás, mas carregam no peito a certeza: um dia eu volto e quando eu voltar serei o bam-bam , com grana no bolso, casa nova e carro novo. Chega de miséria , chega de pobreza. Sou o filho da realeza, ganhei com muita dureza. Chorei, sofri, dias e noites de muita tristeza. Pai, mãe, mulher , menino, prepara aquele feijão preto que tô voltando. Voltando pras Gerais. Pro Planalto Central, pra terra das araucárias, pra São Paulo, Rio de Janeiro ou outra grande capital. Põe meia dúzia de BRAHMA pra gelar. Eu tô chegando...
É o destino...êta cabra safado, interrompe tudo isso sorrateiramente, como um meliante. Age furtivamente em nossos corações e em nossas mentes, de repente, repentinamente cabum! O mundo desmorona e agora José? O mundo acabou... Mas acabou pra quem? Acabou pra você José. Acabou pra você Maria. Você não fez verso, não protestou, guardou, guardou, guardou e o cabra safado do destino te pegou. Te jogou no chão, furtou teu sonhos, tua grana, tua casa, tua mulher, teus filhos, tua família e você seu Zé. Você sobrou, virou um número na estatística. Você entrou pra história. A história que você não lerá.
Na hora que você não quis, que merda José, logo agora, logo agora, você entrou pra história, pois é assim é a vida dos Josés, de nossas Marias. A minha vida, a sua vida amigo leitor, fugimos de tudo. Só não fugimos deste cabra safado, desta alma sebosa, desta coisa chamada destino, neste fim-de-semana foram três compatriotas. Muitos já foram, outros irão. Só nos resta pedir" PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU, QUE A TERRA NOS SEJA. LEVE".
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
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Um comentário:
É isso mesmo meu caro.
Só quem está fora de seu país, sabe bem quanto se sofre.
Eu morei em Newark e N.York.
Um abraço para todos e tudo de bom para todos.
Desde Portugal com saudade.
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